GUSTAF GRÜNDGENS

Os atores alemães que não eram judeus nem opositores do regime e permaneceram na Alemanha após a Machtergreifung (a tomada do poder por Adolf Hitler), geralmente se conformavam à situação por terem um cônjuge judeu. Recusando o divórcio, os “arianos” infringiam as Leis Raciais de Nuremberg, decretadas em 1935, sendo boicotados pelo regime – mas, num dos paradoxos do nazismo, conseguiam manter seus cônjuges a salvo da morte, pois enquanto permanecessem casados com “arianos”, os judeus não podiam ser enviados para os campos de concentração.

Os chamados Jüdisch versippten (aparentados de judeu) sofriam as pressões terroristas do Estado nazista e da população em geral: eram boicotados no trabalho, perdiam os amigos, eram odiados pelos vizinhos e cruelmente manipulados por carreiristas em postos chaves do poder, que usavam seus privilégios para conseguir algum trabalho para os colegas problemáticos, fazendo de seus “protegidos” os álibis para uma boa-consciência.

Gustaf Gründgens (1899-1963) foi o protótipo do “protetor”. Havia sido soldado na Primeira Guerra, durante dois anos. Abraçando a carreira de ator, casou-se, em busca de prestígio, com Erika Mann, a filha de Thomas Mann, e se lançou no teatro experimental ligado ao movimento socialista. Apenas vagamente esquerdista, nunca se engajara verdadeiramente na política.

Antes da tomada do poder pelos nazistas, Gründgens fez o pequeno, mas marcante papel do chefe da quadrilha em M (M, o vampiro de Düsseldorf, 1931), de Fritz Lang; em Danton (1931), de Hans Behrendt, encarnou o revolucionário Robespierre, ao lado de Fritz Kortner no papel-título; atuou em Der Tunnel (O túnel, 1932), de Kurt Bernhardt; dirigiu e protagonizou Eine Stadt steht Kopf (Uma cidade levanta a cabeça, 1932), baseado em O Inspetor-geral, de Gogol.

Mas o papel que o projetou ao estrelato foi o de Mephisto (Mefistófeles) nas célebres encenações das duas partes da peça de Goethe: Faust I (Fausto I), dirigida por Lothar Müthel, em dezembro de 1932, e Faust II (Fausto II), dirigida por Gustav Lindemann, em janeiro de 1933, no Staatliches Schauspielhaus (Teatro Estatal) de Berlim. Gründgens teve seu nome reconhecido nacionalmente, entrando para o quadro dos primeiros artistas da Alemanha. Ironia da História: isso ocorria justamente quando os nazistas tomavam o poder…

Durante o Boicote contra os judeus, Gründgens estava na Espanha, com o roteirista Curt Alexander, preparando-se para as filmagens em locação de Liebelei (1933), de Max Ophüls. O Boicote decidiu o destino de muitos artistas e cineastas, que então se exilaram em Paris. Nesse momento, Gründgens poderia segui-los. Mas ele se perguntou à quoi bon exilar-se justo agora, quando seu Mefistófeles atirava-o à tão sonhada celebridade na Alemanha! Nem política nem existencialmente ele se sentiu concernido com a perseguição aos judeus e aos comunistas: “Eu não era nem judeu nem comunista”, afirmou [1].

Gründgens encontrou imediatamente uma série de justificações para sua decisão de voltar a Berlim: “Eu não dominava nenhum outro idioma, e não tinha nenhum amigo no estrangeiro. Quem teria cuidado de mim? Alguém como Klaus e Erika Mann?” [2]. Outros exilados encontravam-se, porém, na mesma situação. Gründgens encontrou então seu melhor álibi: dele dependiam pessoas que corriam perigo!

Para manter-se no topo, o carreirista tornou-se salvador. Ele precisava voltar à Alemanha para sustentar seus pais e proteger amigos ameaçados, entre os quais o comunista Jan Kurzke, que pensava em combater os nazistas na Alemanha; e a judia esquerdista Ida Liebmann. Os dois moravam com Gründgens em sua casa em Grunewald. De volta à Alemanha, Gründgens enviou Kurzke para a Espanha e Ida a Paris, onde ela se empregou como baby-sitter em casa de Léon Blum. Gründgens não conseguiu, porém, salvar o seu amigo e ator Hans Otto, morto pela Gestapo, em 1933. Mas não faltariam, em seu meio, outras vítimas a salvar.

A situação de Gründgens era cômoda: contava com a proteção de Hermann Göring, comandante da Força Aérea, e de sua esposa, a ex-atriz Emmy Sonnemann-Göring. Admiradores de sua criação de Mefistófeles, eles nomearam Gründgens diretor do Staatliches Schauspielhaus. O ator aceitou o cargo, com a condição de não encenar peças de propaganda, mas somente clássicos ou peças que transformassem a ideologia nazista em “poesia”.

Assim protegido, Gründgens pode desempenhou o papel de salvador dos perseguidos pelo regime que o consagrava, empregando em seu teatro o diretor de teatro Erich Ziegel, cuja esposa Mirjiam Horwitz tinha ascendência judaica; o ator comunista Ernst Busch, visado pela Gestapo; e outros atores em situação delicada, como Theo Lingen, Otto Wernicke, Paul Bildt, Paul Henckels e Wolfgang Kühne (casados com judias); Schönfelder e Arnold Marlé (judeus).

Exercendo seu poder de protetor protegido por autoridade maior, Gründgens sentiu-se radiante ao ser nomeado, em 1934, Intendente do Teatro no ‘Terceiro Reich’, um cargo de grande prestígio e compromisso com o regime. Quando Elsa Wagner entrou em seu novo escritório, ele a tomou nos braços e começou a valsar, dizendo: Es ist ja so leicht, Intendant zu sein! (É tão fácil ser Intendente!) [3].

Mas a alegria de Gründgens, então um homossexual notório, revelou-se instável quando Ernst Röhm, outros líderes nazistas de esquerda e centenas de militantes das S.A. foram dizimados pelas S.S. na Noite das Facas Longas (1934). Hitler concluiu então que se Röhm, que era homossexual, o “traíra”, então todos os homossexuais eram traidores em potencial e precisavam ser eliminados. Em toda a Alemanha os homossexuais passaram a ser caçados, detidos e enviados para campos de concentração.

Gründgens, que não era “nem judeu nem comunista”, viu-se enfim concernido. O pavor de ser incluído na Lista Negra levou-o a pedir demissão e fugir para a Basiléia em 1935. Sua carta de demissão, que Curt Riess considerou um “documento de coragem e consequência” [4], é um documento de inconsequência e covardia: Gründgens aí afirmava que a única razão que o pressionara a fugir eram “as repetidas ações contra certo grupo de pessoas, com as quais eu de modo algum me identifico, mas com as quais sou identificado”.

Um telefonema de Göring tranquilizou Gründgens quanto aos seus “pecados”. O protetor teria ao mesmo tempo ameaçado seu protegido: caso ele não retornasse à Alemanha, cortaria a proteção que ele dava aos seus protegidos. Essa ameaça, que teria sido casualmente testemunhada por Alice Bernouilli, uma de suas amigas judias, convenceu Gründgens da necessidade de retornar ao seu posto de Intendente e de “protetor” de ameaçados. E em 1936 o ator tornou-se Conselheiro de Estado.

Gründgens teve, assim, por duas vezes, a oportunidade de optar entre a liberdade no exílio e a submissão sob a ditadura nazista. Preferiu nas duas ocasiões voltar a viver sob um poder criminoso, cuja violência conhecia tão bem que dele fugira por precaução, ao sentir-se concernido. Mas pouco lhe importava que judeus e comunistas, e agora também homossexuais, fossem parar nos campos de concentração. Ele estava garantido.

Desde que o ator permanecesse livre e em evidência, trilhando uma carreira de sucessos e salvando um que outro perseguido, tudo ia bem para Gründgens. De volta à Alemanha, declarou que “uma vida humana parece-me mais valiosa que um golpe de Hollywood” [5]. E, num golpe de Hollywood, casou-se com a atriz Marianne Hoppe, que era lésbica: ambos despistavam assim para o grande público suas preferências sexuais.

No romance Mephisto: Roman einer Karriere, Klaus Mann teve a percepção genial das opções de Gründgens, retratando-o como símbolo da corrupção do artista ou do intelectual pelo poder totalitário, alimentado pela colaboração dos carreiristas. Klaus, homossexual e antinazista de primeira hora, conhecia bem o ambicioso homossexual Gründgens, que se casara por dois anos com sua irmã Erika, lésbica, pelo prestígio de se ver incluído na “família Mann”.

Em sua novela, Klaus transfigurou a homossexualidade de Gründgens na paixão sexual do personagem por uma negra. O desejo de subir a qualquer preço e os “pecados” cometidos no passado são os meios usados pelo poder para corromper os artistas que se submetem às chantagens em busca de sucesso a qualquer preço. Para cumular sua corrupção, Gründgens obteve na Justiça a proibição de Mephisto por “calúnia”. Seu “filho adotivo” e herdeiro Peter Gorski manteve o embargo do livro na Alemanha até 1981.

Embora protegido por Göring e Hitler, Gründgens não era bem visto por Goebbels: contra o ator pesavam as antigas relações com a família Mann, suas tendências “esquerdistas”, seus suspeitos encontros noturnos com marinheiros e soldados, suas intervenções em prol de atores marcados. Goebbels chamava o Staatliches Schauspielhaus de Berlim de “die Insel” (a ilha), mas ilha de liberdade é que ele não foi.

O repertório do Staatliches Schauspielhaus não permaneceu limpo de propaganda como o pretendeu Gründgens. Naturalmente, uma encenação não pode ser revista como um filme, a não ser quando registrada (em película ou vídeo), como no caso do Faust (Fausto), montado em 1960 por Gründgens na Deutsches Schauspielhaus (Teatro Alemão) de Hamburgo e filmado por Peter Gorski: Faust (1960) preserva algo daquilo que definiu toda a existência do ator: sua perversa encarnação de Mefistófeles.

Mas entre as primeiras peças do repertório do Staatliches Schauspielhaus de Berlim sob a direção de Gründgens encontravam-se Friedrich der Große (Frederico, o Grande), do escritor nacional-socialista Hermann Boetticher, e Hundert Tage (Cem dias), de Forzani e Benito Mussolini… Outras peças tinham um pano de fundo caro ao regime.

Em Die Kameliendame (A dama das camélias), de Alexandre Dumas, montada em 1937, a heroína agoniza de tuberculose; em Der Artz am Scheideweg (O dilema de um médico), de Bernard Shaw, montada em 1937, Gründgens interpreta o pintor Dubedat, doente dos pulmões; Die Königin Isabella (A rainha Isabel), montada em 1939, trata da rainha que expulsou os judeus da Espanha; e Die Räuber (Os ladrões), de Friedrich Schiller, montada em 1940, é uma peça querida pelos nazistas, por trazer um bandido judeu que acaba enforcado.

O cinema nazista associava constantemente os judeus a doenças contagiosas e a criminosos detestados. Essa associação parece ter se estendido ao repertório de Gründgens no Staatliches Schauspielhaus. E esse artista sem preconceitos não ficou de fora do cinema nazista. Como ator, encarnou o professor Higgins no Pygmalion (1935), de Erich Engel; o cínico e populista rei Charles VII da Inglaterra em Das Mädchen Johanna (1935), de Gustav Ucicky; o ator revolucionário de Tanz au dem Vulkan (1938), de Hans Steinhoff; o fracassado compositor Friedmann Bach (1941), de Traugott Müller; o decadente dandy inglês Joseph Chamberlain em Ohm Krüger (Tio Krüger, 1941), de Hans Steinhoff.

Como diretor, realizou Die Finanzen des Großherzogs (1934), Kapriolen (1937), Der Schritt vom Wege (1939) e Zwei Welten (1940). Em Kapriolen, há uma cena significativa em que Gründgens parece ilustrar sua afirmação de não se identificava àquele grupo de pessoas ao qual era identificado, dissociando-se dos homossexuais perseguidos pelo regime que ele, homossexual supostamente interessado apenas em mulheres, apoiava: no papel do pianista Jack Warren, ele foge de um grupo de fãs efeminados que o perseguem e, fechando a porta atrás de si, exclama: “É de vomitar!”.

Segundo Rudolf Fernau, cinco atores foram escalados para o teste do papel-título de Jud Süß (O judeu Süß, 1940), de Veit Harlan: Siegfried Breuer, René Deltgen, Paul Dahlke, Ferdinand Marian e ele próprio. Mas Boguslaw Drewniak lembrou que outros três nomes foram também cogitados Emil Jannings, Willi Forst e Gustaf Gründgens [6].

No caso de Jannings, seria uma escolha apenas errada do ponto de vista da propaganda, pois esse ator sempre encarnava heróis nacional-socialistas. Já no caso de Gründgens e Forst a cogitação talvez embutisse um projeto de vingança: Goebbels detestaria Gründgens – o homossexual protegido de Göring; e Forst – por ter encarnado em Bel Ami um personagem de conquistador barato que ascende a ministro, identificado a Goebbels pelo público.

Foi Ferdinand Marian quem recebeu o papel, por “saber melhor mauscheln” (expressão de sentido pejorativo que significa saber falar o dialeto judaico alemão) e ter o melhor biótipo: “Ferdinand Marian tem o Mediterrâneo e a Sedução”, opinou Erich Knauf, chefe de imprensa da companhia Terra. Hans Söhnker o confirmou: “Marian é mais indicado para o tipo meridional” [7].

Gründgens escapou assim de ter de interpretar um papel que poderia enterrar sua carreira. Mas teve de provar seu patriotismo durante a “guerra total”: em fevereiro de 1943, alistou-se como voluntário no Exército alemão, sem abdicar do posto de Intendente. A 1º de setembro de 1944, porém, todos os teatros alemães foram fechados por ordem de Goebbels. Depois da guerra, Gründgens foi preso pelos russos, e passou nove meses internado num campo de detenção. Foi “desnazificado” por atuar como “salvador” de artistas marcados.

Gründgens respondia aos que o interpelavam sobre seu papel no ‘Terceiro Reich’ com a sentença: “É difícil para um homem que só conhece uma ditadura por fora compreender o comportamento de outro sob uma ditadura”. Foi com a mesma frase de efeito que Martin Heidegger justificou seu adesismo ao ser questionado pelo indignado ex-aluno Herbert Marcuse.

Quando Gründgens completou 60 anos, tendo interpretado Mefistófeles mais de 600 vezes, Erwin Leiser realizou um programa de rádio sob o título Wenn der Teufel alt wird (Quando o diabo fica velho). Mas Leiser era uma voz crítica isolada, numa Alemanha que já recuperava o seu passado através da recuperação dos valores da cultura nazista.

Em 1963, em excursão aos EUA e à América Central, acompanhado por um jovem ator, Gründgens tomou, num quarto de hotel em Manila, uma dose excessiva de soníferos. O acompanhante encontrou-o agonizando. A possibilidade de suicídio foi descartada, mas como acreditar na hipótese de um “acidente”? Levantou-se mesmo a suspeita de que Gründgens tivesse sido assassinado. Por quem? Por quê? Assassinato político? Drama homossexual? O mistério nunca foi desfeito.

Referências Bibliográficas

BADENHAUSEN, Rolf; GRÜNDGENS-GORSKI, Peter (ed.). Gustaf Gründgens. Briefe. Aufsätse. Reden. Hamburg: Hoffmann und Campe, 1967.

DREWNIAK, Boguslaw. Der deutsche Film 1938-1945: Ein Gesamtüberblick. Düsseldorf: Droste, 1987.

FERNAU, Rudolf. Als Lied begann’s. Lebenstagebuch eines Schauspielers. München: DTV, 1975.

MANN, Klaus. Mephisto: Romance de uma carreira. São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

RIESS, Curt. Gustaf Gründgens: eine Biographie. Hamburg: Hoffmann und Campe, 1965.

RIESS, Curt. Meine Berühmten Freunde: Erinnerungen. Freiburg: Herder, 1987.

RISCHBIETER, Henning (ed.). Gründgens: Schauspieler, Regisseur, Theaterleiter. Hannover: Friedrich, 1963.

SPANGENBERG, Eberhard. Karriere eines Romans: Mephistos Klaus Mann und Gustaf Gründgens. München: Spangenberg im Heinrich Ellermann, 1984.


[1] RIESS, Curt. Gustaf Gründgens: eine Biographie, p. 122.

[2] RIESS, Curt. Gustaf Gründgens: eine Biographie, p. 122.

[3] RIESS, Curt. Meine Berühmten Freunde, p. 128.

[4] RIESS, Curt. Meine Berühmten Freunde, p. 140.

[5] GRÜNDGENS, Gustaf. Briefe. Aufsätse. Reden, p. 77.

[6] DREWNIAK, Boguslaw. Der deutsche Film 1938-1945, p. 314.

[7] FERNAU, Rudolf. Als Lied begann’s, p. 262.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s